Óleos à base de cannabis medicinal vêm sendo utilizados com acompanhamento médico por pacientes que buscam alternativas para controlar sintomas de transtornos mentais
O tratamento de ansiedade e depressão tem incorporado novas possibilidades além dos medicamentos tradicionais. Entre elas está o uso medicinal de produtos à base de canabidiol (CBD), substância encontrada na planta Cannabis, que vem sendo prescrita por profissionais de saúde em situações específicas.
De acordo com dados do Anuário da Cannabis Medicinal da Kaya Mind, mais de 873 mil pacientes utilizaram Cannabis medicinal no Brasil em 2025 para diferentes finalidades terapêuticas.
Um dos pacientes é o educador social Juraci do Amor, que relatou ter recorrido ao tratamento com CBD após enfrentar dificuldades com medicamentos convencionais para controlar a ansiedade.
“Busquei tratamento psiquiátrico, tomei todos esses remédios da categoria alopática. Mas eu não tive sucesso, porque os remédios me deixavam muito comprimido, sem vontade de fazer muita coisa”, relatou.
Segundo Juraci, após iniciar o uso do óleo de CBD e, posteriormente, de uma formulação contendo CBD e THC, ele percebeu mudanças nos sintomas de ansiedade, no sono e na qualidade de vida.
“A minha ansiedade foi quase zero. Fiquei muito bem com o óleo e me ajudou muito no processo depressivo, além de aumentar a minha autoestima”, afirmou.
Ele também contou que percebeu melhora no sono e nos relacionamentos pessoais e profissionais.
COMO É FEITA A PRESCRIÇÃO?
O uso medicinal de produtos à base de Cannabis não deve ser iniciado por conta própria. A indicação depende de avaliação profissional e deve considerar o histórico de saúde e os medicamentos utilizados pelo paciente.
A médica Mariane Ventura, que prescreve produtos à base de Cannabis, explica que a avaliação considera fatores como outras doenças, medicamentos em uso, histórico dos transtornos e a gravidade dos sintomas.
“É uma avaliação médica geral, onde se entende todo o quadro de saúde daquele indivíduo, se ele tem outros tipos de doenças, como uma hipertensão, diabetes, se faz uso de medicações e como esse histórico de ansiedade e depressão”, explicou.
A médica também destaca a importância de investigar episódios mais graves, como internações e tentativas de suicídio, antes de definir a estratégia terapêutica.
Quando indicado, o tratamento pode ser associado à psicoterapia, atividade física, mudanças na alimentação e regularização do sono.
RESPOSTA AO TRATAMENTO VARIA ENTRE PACIENTES
A psicóloga Taciane Rodrigues Goto, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, ressalta que a resposta aos produtos derivados da Cannabis pode variar significativamente de uma pessoa para outra.
Segundo ela, não existe uma fórmula universal para o tratamento de transtornos mentais. Em alguns pacientes, o CBD pode contribuir para a redução de determinados sintomas, enquanto em outros pode não produzir o efeito esperado ou provocar reações adversas.
A profissional também destaca que o objetivo do tratamento não deve ser simplesmente sedar o paciente, mas contribuir para a recuperação da funcionalidade, autonomia e qualidade de vida.
Por isso, o acompanhamento de profissionais de saúde continua sendo importante durante o tratamento.
CUSTO AINDA É UM DOS PRINCIPAIS OBSTÁCULOS
Apesar do crescimento do uso medicinal da Cannabis no Brasil, o acesso ainda é considerado um desafio para muitos pacientes.
Os preços dos produtos podem variar bastante conforme a concentração e a quantidade de canabidiol. Formulações com concentrações mais baixas podem custar algumas centenas de reais, enquanto produtos de concentração elevada podem ultrapassar R$ 1.800.
Há também pacientes que recorrem a associações para reduzir os custos do tratamento. Em determinadas situações, produtos podem ser importados mediante as autorizações exigidas pela regulamentação brasileira.
Juraci afirmou que procura associações para conseguir medicamentos com preços mais acessíveis.
“Hoje em dia eu busco as associações que me ajudam e consigo encontrar um medicamento mais em conta. Mas ainda assim tem um custo relevante”, disse.
Ele também relatou que realiza cultivo próprio para fins medicinais mediante decisão judicial específica, buscando garantir a continuidade do tratamento.
DEBATE SOBRE REGULAMENTAÇÃO
Para Leandro Stelitano, presidente da Associação para Pesquisa e Desenvolvimento da Cannabis Medicinal no Brasil (CANNAB), a ampliação do acesso depende de avanços na regulamentação e da redução dos custos dos produtos.
Segundo ele, embora já existam produtos à base de Cannabis disponíveis no mercado brasileiro, parte importante da cadeia ainda depende de importações, o que contribui para elevar os preços.
O debate sobre a Cannabis medicinal envolve, portanto, não apenas a prescrição e o acompanhamento dos pacientes, mas também questões relacionadas à produção, regulamentação, pesquisa e acesso aos medicamentos.
Especialistas reforçam que pessoas que apresentam sintomas de ansiedade ou depressão devem procurar avaliação de profissionais de saúde antes de iniciar qualquer tratamento, inclusive com produtos à base de Cannabis.




