Tribunal aponta falha que pode afetar até 110 mil pessoas; governo afirma que repasses estão em dia, enquanto clínicas e médicos relatam atrasos e subfinanciamento.
O Tribunal de Contas da União (TCU) abriu investigação para apurar atrasos no repasse de recursos a clínicas de hemodiálise que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A medida foi tomada após denúncias de risco à continuidade do tratamento de pacientes renais.
Pessoas com doença renal crônica dependem da hemodiálise para sobreviver. Segundo especialistas, atrasos nos pagamentos podem comprometer o fornecimento de insumos, reduzir a capacidade de atendimento e colocar vidas em risco em poucos dias.
A decisão, publicada no Diário Oficial da União, teve origem em uma denúncia envolvendo a Prefeitura de Goiânia (GO). Clínicas relataram demora no recebimento de valores que já haviam sido transferidos pelo governo federal.
“O denunciante relata atrasos no repasse de verbas federais às clínicas de hemodiálise por parte da Prefeitura Municipal de Goiânia/GO, que expõe os pacientes renais a risco de vida”, diz o acórdão.
Procurada, a Prefeitura de Goiânia não se manifestou até a última atualização desta reportagem.
Denúncia local ganha dimensão nacional
Ao analisar o caso, o TCU avaliou que os indícios não se restringem a um único município. O tribunal citou apurações semelhantes em andamento em estados como Roraima e Tocantins e decidiu unificar os processos em uma investigação mais ampla.
A decisão também menciona uma solicitação do Congresso Nacional para verificar a regularidade dos repasses em todo o país, diante de relatos de que atrasos podem afetar cerca de 110 mil pacientes renais crônicos.
Clínicas relatam pressão financeira
De acordo com a Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT), os atrasos são recorrentes e têm se intensificado.
A entidade informou que, em 2024, foram registradas cerca de 40 cobranças extrajudiciais, que somaram mais de R$ 109 milhões. Em 2025, o número subiu para aproximadamente 50 cobranças, totalizando R$ 123 milhões.
Em 2026, ainda segundo a associação, já foram feitas mais de 17 cobranças, indicando a continuidade do problema.
Mesmo quando os recursos federais são repassados, o dinheiro pode demorar a chegar às clínicas — em alguns casos, com atrasos superiores a 60 dias.




